Verona medieval: a cidade que uma só família transformou para sempre

Existe um curioso paradoxo no modo como se visita Verona. A maior parte dos turistas chega à procura de Romeu e Julieta — uma história de ficção ambientada no século XIV — e caminha, sem o saber, entre os monumentos reais desse mesmo século, quase sem reparar neles. As Arche Scaligere ficam a cem metros da Casa de Julieta. San Zeno, uma das obras-primas do românico italiano, está a dez minutos a pé da Arena. E, no entanto, permanecem em segundo plano, menos fotografados, menos procurados.
É uma pena, porque a Verona medieval é extraordinária. E não no sentido genérico em que se diz que toda cidade italiana é extraordinária: no sentido de que aqui, num perímetro de poucos quilómetros, uma só família deixou uma marca arquitetónica e artística que tem poucos equivalentes na Europa. Chamavam-se Della Scala. Conhecemo-los como Scaligeri. E Verona, em boa parte, é ainda a cidade que eles construíram.
Uma família de mercadores que se tornou dinastia
As origens dos Scaligeri não são as de uma grande casa nobre. No início do século XIII, o chefe de família era Jacopino della Scala, um abastado mercador de lã, mas sem títulos nobiliárquicos. O que é certo é que o seu neto Mastino, em 1262, é eleito Capitão do Povo de Verona: um título de garantia num momento em que a cidade está dilacerada pelos confrontos entre guelfos e gibelinos.
A partir desse momento, a história muda de ritmo. Em menos de um século, os Della Scala passam de mercadores a senhores de um domínio que se estende por boa parte do nordeste italiano — Vicenza, Pádua, Treviso. O apogeu chega com o governo de Cangrande I (1308-1329): condottiero, mecenas, amigo de Dante. É ele que transforma Verona numa corte capaz de atrair artistas, poetas e intelectuais de toda a Itália.
A família governa durante 125 anos, até 1387, quando as tropas dos Visconti entram na cidade de noite pelas portas abertas pelos conjurados. O último senhor, Antonio, barrica-se na torre de menagem de Castelvecchio com a mulher e os filhos. O povo, cansado, não o defende. É o fim de uma dinastia — mas os seus monumentos estão todos ainda ali.
San Zeno: o lugar onde nasce o Comune
A Basílica de San Zeno não é apenas a obra-prima românica da cidade: é, num certo sentido, o ponto de partida da história cívica de Verona.
O tímpano do portal — o baixo-relevo sobre a entrada, realizado por volta de 1138 — é considerado pelos historiadores de arte o ato de nascimento do Comune de Verona. Ao centro, San Zeno, em trajes episcopais, abençoa dois exércitos alinhados a seu lado: cavaleiros à direita, peões à esquerda. A nobreza fundiária e a burguesia citadina, unidas sob a proteção do santo padroeiro. Um documento esculpido na pedra, que conta uma cidade que está a escolher como organizar-se.
O portal de bronze é outra história dentro da história. As 48 placas que revestem os dois batentes — cenas do Antigo e do Novo Testamento, episódios da vida de San Zeno — foram realizadas por dois mestres diferentes em épocas distantes: as placas da esquerda remontam ao século XI-XII, as da direita ao XII-XIII. Olhando com atenção, vê-se a diferença de estilo: as mais antigas têm um traço mais rude e expressivo, as mais recentes uma composição mais elaborada. É como ler dois capítulos de um livro escritos com um século de distância.
No interior, entre frescos e cripta, encontra-se também o Retábulo de Andrea Mantegna — uma das obras mais importantes do Renascimento em terra veronesa. San Zeno é uma daquelas igrejas em que se entra pensando ficar vinte minutos e se sai uma hora depois.
Piazza delle Erbe: dois mil anos numa só praça
A Piazza delle Erbe é o coração comercial de Verona há dois mil anos. Antes era o fórum romano. Na Idade Média tornou-se o mercado da cidade. Hoje é uma das praças mais animadas do norte de Itália, com as bancas do mercado a ocupar ainda o centro exato onde os romanos realizavam as suas assembleias públicas.
Observando a praça com atenção, distinguem-se os sinais de todas as épocas que aqui se sobrepuseram. A Domus Mercatorum — a sede medieval da corporação dos mercadores — dá para o lado este. A coluna com o leão de São Marcos, acrescentada pelos venezianos em 1523, recorda que depois dos Scaligeri chegou também a Sereníssima. A fonte ao centro, com a estátua chamada Madonna Verona, é romana no embasamento e medieval na taça. Cada elemento tem uma idade diferente, e juntos formam uma estratificação impossível de encontrar noutro lugar.
Há também um elemento que quase ninguém conhece: o Capitello, um baldaquino de mármore do século XIII no centro da praça, também chamado Berlina. Sob ele sentavam-se os podestades na cerimónia de tomada de posse, proclamavam-se os éditos públicos — e aqui eram expostos ao pelourinho os condenados, os blasfemos e os fraudadores. Na sua base ainda são visíveis as medidas comerciais veronesas esculpidas na pedra. A Verona medieval não era só arte e poesia.
Piazza dei Signori: a sala de estar do poder scaligero
A poucos passos da Piazza delle Erbe, através do Voltone della Mazzanti, abre-se a Piazza dei Signori — a que os veroneses chamam também Piazza Dante, pela estátua do Sumo Poeta ao centro. É uma das praças mais elegantes de Itália e pouquíssimo frequentada pelos turistas em comparação com a vizinha Piazza delle Erbe. Um pouco escondida, um pouco recolhida: exatamente como a queriam os Scaligeri, que a usavam como coração político e residencial do seu senhorio.
No lado norte ergue-se o Palazzo del Governo, antiga residência dos Scaligeri, depois sede do poder veneziano, hoje prefeitura. No lado este, o Palazzo della Ragione com a Torre dei Lamberti — 84 metros, a torre mais alta de Verona, de onde se domina toda a cidade. No lado oeste, a Loggia del Consiglio, considerada o primeiro edifício renascentista da cidade, construída quando os Scaligeri já não estavam há quase um século, mas o seu traçado urbanístico permanecera intacto.
A estátua de Dante está aqui por uma razão precisa. O poeta permaneceu em Verona cerca de sete anos no total durante o seu exílio: de 1303 a 1304 como hóspede de Bartolomeo della Scala, e depois de 1312 a 1318 como hóspede de Cangrande I, a quem dedicou toda a cantiga do Paraíso. Cangrande é citado no canto XVII como o maior benfeitor do poeta. Nesta praça, nos palácios que a rodeiam, Dante caminhou, discutiu, escreveu. É um daqueles pormenores que tornam Verona algo mais do que uma bela cidade medieval.
As Arche Scaligere: um cemitério de família que vale um museu
As Arche Scaligere encontram-se num pequeno recinto ao lado da Piazza dei Signori, e dificilmente se espera o que ali se descobre. Um cemitério privado, fechado por um gradeamento de ferro forjado decorado com o motivo da escada — o brasão da família. De fora parece quase discreto. De perto é uma das obras góticas mais espetaculares da Europa.
Os três túmulos monumentais — de Cangrande I, Mastino II e Cansignorio — são encimados por baldaquinos de mármore esculpidos, pináculos góticos, estátuas de santos guerreiros e, acima de tudo, as grandes esculturas equestres dos senhores a cavalo. As que hoje se veem sobre os túmulos são cópias: os originais estão no Museu de Castelvecchio. Cangrande I sorri — um sorriso aberto e vital, caso raríssimo na escultura celebrativa do século XIV, que fascina historiadores e visitantes há séculos.
O túmulo de Cansignorio é o mais elaborado de todos. Mandou-o construir ele próprio, durante a vida, porque estava em más condições de saúde e queria ter voz ativa no seu próprio monumento funerário. Projetado por Bonino da Campione, custou mais de dez mil florins — uma quantia exorbitante para a época. O resultado assemelha-se a um relicário gótico gigantesco, com seis santos guerreiros nos cantos e narrações evangélicas nos lados do sarcófago. Cansignorio não se poupou.
Informações adicionais
Para descobrir a Verona medieval com a profundidade que merece — as praças scaligeras, San Zeno, as Arche, as histórias que os livros de história não contam — o Guide Center Verona propõe a Visita Guiada Verona Medieval: um percurso de cerca de três horas pelo coração medieval da cidade, com guias turísticos autorizados.
FAQ
Os principais lugares da Verona medieval são a Basílica de San Zeno com o seu portal de bronze e o Retábulo de Mantegna, a Piazza delle Erbe com a Domus Mercatorum e o Capitello medieval, a Piazza dei Signori com os Palácios Scaligeri e a Torre dei Lamberti, e as Arche Scaligere — os monumentos funerários góticos da família Della Scala. A estes juntam-se Castelvecchio e a Ponte Scaligera, e a Basílica de Sant’Anastasia.
Os Scaligeri — ou Della Scala — foram a família que governou Verona de 1262 a 1387, durante 125 anos. Partindo de origens mercantis, tornaram-se um dos senhorios mais poderosos do norte de Itália. Sob Cangrande I (1308-1329), Verona atingiu o seu apogeu político e cultural: a corte scaligera acolheu Dante no exílio e financiou os monumentos medievais mais importantes da cidade. O seu legado é ainda visível em cada canto do centro histórico.
San Zeno é uma das obras-primas do românico lombardo-padano. O portal de bronze com as suas 48 placas bíblicas está entre os exemplos mais importantes de escultura medieval em Itália. O tímpano sobre a entrada, de 1138, é considerado o ato de nascimento do Comune de Verona. No interior encontra-se o Retábulo de Mantegna, uma das obras-primas do Renascimento italiano.
As Arche Scaligere encontram-se num recinto exterior, visível gratuitamente do lado de fora do gradeamento de ferro forjado, junto à igreja de Santa Maria Antica. As estátuas equestres originais — incluindo Cangrande I com o seu célebre sorriso — estão conservadas no Museu de Castelvecchio, onde podem ser admiradas de perto.
A Verona medieval visita-se bem em qualquer estação. Na primavera e no outono o clima é ideal para longos passeios pelo centro histórico. O verão é mais concorrido, mas oferece horários de abertura alargados. O inverno tem o encanto da cidade menos frequentada, com a luz baixa que realça as cores do mármore vermelho veronês nos monumentos.