Verona romana: a cidade que os romanos construíram para durar dois mil anos
Verona era romana antes de ser medieval, antes de ser shakespeariana, antes de ser tudo aquilo que os turistas costumam vir procurar. E dessa Verona romana, curiosamente, resta muitíssimo — bem mais do que se esperaria ao caminhar pelo centro histórico sem saber onde olhar.
Quase toda a gente conhece a Arena. Mas quantos sabem que sob a Piazza delle Erbe ainda estão os alicerces do fórum romano? Que a Porta Borsari se chamava originalmente Porta Iovia, dedicada a Júpiter, e que o seu nome atual vem dos soldados medievais que ali cobravam as portagens? Que a Ponte Pietra, a ponte mais antiga da cidade, foi explodida em 1945 e reconstruída recuperando, um a um, os seus blocos de pedra do leito do rio?
A Verona romana não é um capítulo encerrado da história antiga. É uma cidade ainda viva por baixo da atual, legível para quem sabe lê-la.
Uma localização que não se escolhe por acaso
Os romanos não fundavam as cidades ao acaso. Quando, no século I a.C., transformam Verona de um pequeno povoado numa colónia planeada, fazem-no porque aquela posição vale ouro do ponto de vista estratégico.
Há o rio Ádige, que faz uma curva quase completa em torno da área urbana: defende três lados da cidade sem necessidade de construir muralhas. Há a Via Postumia — a grande estrada consular que ligava Génova a Aquileia atravessando toda a planície do Pó — que passa precisamente por aqui, transformando Verona no nó viário mais importante do norte de Itália. Há o Lago de Garda a poucos quilómetros, então chamado Benacus, que garante recursos hídricos e comunicações em direção ao arco alpino. E há o Brennero, a passagem natural para o norte da Europa, alcançável subindo o vale do Ádige.
Os generais romanos compreendem de imediato que quem controla Verona controla o tráfego entre o Mediterrâneo e a Europa central. A cidade é planeada em conformidade: com a precisão ortogonal típica de Roma, com um fórum no centro, com ruas lajeadas que duram séculos.
A Arena: construída fora das muralhas, tornada o coração da cidade
A Arena de Verona é o terceiro maior anfiteatro romano ainda existente no mundo, depois do Coliseu e do Anfiteatro de Cápua. Foi construída em meados do século I d.C., fora das muralhas da cidade romana — como quase todos os anfiteatros romanos, para evitar aglomerações no centro urbano durante os espetáculos. Podia conter cerca de 30 000 espectadores.
Um pormenor que quase ninguém conhece: em 69 d.C., durante a guerra entre Vitélio e Vespasiano, o imperador Vespasiano escolheu Verona como base militar precisamente porque a Arena se encontrava fora das muralhas, tornando-as inúteis para fins defensivos. Mandou então escavar um fosso suplementar a sul da cidade — o Adigetto — que se tornou depois uma das características da paisagem urbana medieval.
O que vemos hoje é quase inteiramente o anfiteatro original, com uma grande diferença: falta quase todo o anel exterior. Dele sobrevive apenas um fragmento no lado norte — quatro arcos a que os veroneses chamam a Ala — que mostram como devia parecer a estrutura antes de um forte sismo, em 1183, ter destruído o terceiro anel de arcos. Os materiais que ruíram foram usados para construir a cidade medieval. A Arena sempre reciclou os seus próprios escombros.
Porta Iovia: a entrada que os peregrinos viam primeiro
Quem chegava a Verona percorrendo a Via Postumia desde oeste, de Génova ou de Milão, encontrava-se diante da Porta Borsari. Na época romana chamava-se Porta Iovia — do templo dedicado a Júpiter Lustral que se erguia nas imediações. Era a entrada principal da cidade e, como tal, fora construída com todas as honras: duas ordens sobrepostas de janelas em arco, colunas coríntias, decorações que comunicavam o poder e o prestígio de Verona.
O nome Borsari surge muito mais tarde, na Idade Média, dos bursarii — os soldados que aqui estacionavam para cobrar as portagens sobre as mercadorias em trânsito. É um daqueles casos em que o nome medieval encobriu o romano, mas o edifício ainda conta claramente a sua história original: vê-se na simetria da fachada, nas proporções dos arcos, na qualidade do calcário veronês utilizado.
Passar sob a Porta Borsari significa, literalmente, entrar na cidade romana. Para além do arco, a avenida que se abre à frente — Corso Cavour primeiro, depois Corso Porta Borsari — segue exatamente o decumanus maximus, o eixo este-oeste do planeamento romano. Caminha-se sobre uma estrada que os romanos projetaram há dois mil anos.
Piazza delle Erbe: o fórum por baixo do mercado
A Piazza delle Erbe é uma das praças mais animadas de Itália, com as suas bancas de mercado, os seus palácios com frescos, o ruído e a cor típicos de um lugar vivido há séculos. O que quase ninguém imagina, ao atravessá-la, é que está a caminhar sobre o antigo fórum romano de Verona.
O fórum era o centro político, económico e religioso de toda a cidade romana: o lugar das assembleias, do tribunal, do templo principal. Em Verona situava-se exatamente aqui, na área que ainda hoje coincide com a praça. Sob as pedras da calçada e os alicerces dos palácios estão ainda os restos do Capitolium — o templo dedicado à tríade capitolina de Júpiter, Juno e Minerva — encontrados durante escavações no século XIX e ainda hoje parcialmente visitáveis nas caves de alguns edifícios.
O cruzamento do decumanus maximus com o cardo maximus — o eixo norte-sul — ocorria precisamente aqui, na área do fórum. Significa que a Piazza delle Erbe é o ponto exato em torno do qual os quatro engenheiros romanos encarregados da fundação da colónia desenharam toda a cidade. O mercado medieval, as mesas dos cafés, as bancas de recordações: tudo por cima da cruz que Roma traçou há dois mil anos.
Ponte Pietra: cinco arcos, três épocas, uma só história
A Ponte Pietra é a ponte mais antiga de Verona e uma das pontes romanas mais bem documentadas de Itália. A sua história começa provavelmente antes de 89 a.C. — a falta de alinhamento com a malha viária romana leva a pensar que já existia antes do planeamento da colónia, talvez como travessia primitiva do vau natural do Ádige.
O que torna a Ponte Pietra visualmente única é a diversidade dos seus materiais: os dois arcos do lado esquerdo são ainda os romanos originais, em pedra branca. Os dois arcos da direita são medievais, em tijolo vermelho, reconstruídos entre os séculos XIII e XIV pelos Scaligeri. O arco central é veneziano, de 1520, obra de Fra’ Giocondo. A ponte é um atlas da arquitetura veronesa, legível em cinco vãos.
A 24 de abril de 1945, os soldados alemães em retirada fizeram explodir todas as pontes da cidade. Da Ponte Pietra ficou intacto apenas o arco voltado para a cidade. O que se seguiu é uma das mais belas histórias da conservação italiana: o superintendente Piero Gazzola decidiu reconstruir a ponte por anastilose — recuperando do leito do rio cada bloco de pedra, catalogando-o e voltando a pô-lo no seu lugar. Os trabalhos duraram de 1957 a 1959. A ponte que se percorre hoje é feita dos mesmos blocos da romana. Cada pedra foi resgatada, numerada, restituída.
O Teatro Romano e o Museu Arqueológico: para além do Ádige
Na margem esquerda do Ádige, ao pé do Colle di San Pietro, ergue-se um segundo grande monumento romano que a maioria dos turistas não alcança: o Teatro Romano. Construído no século I a.C., aproveita o declive natural da colina para a cavea — a solução típica dos teatros romanos, oposta à dos anfiteatros, que se autossustentam estruturalmente. O palco voltava-se para o rio; o fundo de cena era o céu e as colinas.
O Teatro Romano nunca caiu completamente em desuso: na Idade Média construíram-se sobre ele casas e igrejas que o ocultaram durante séculos. Foi redescoberto e escavado no século XIX. Hoje acolhe todos os verões a Estate Teatrale Veronese. Atuar ou assistir a um espetáculo ali, com a cidade iluminada ao fundo e o rio por baixo, é uma experiência que não se parece com nenhum outro teatro do mundo.
Por cima do teatro, acessível por um elevador escavado na rocha, encontra-se o Museu Arqueológico de Verona: mosaicos, inscrições, estátuas, objetos da vida quotidiana que contam como se vivia na Verona dos séculos I a IV d.C. É o lugar certo para ligar todas as peças vistas pela cidade a uma história de conjunto.
Informações adicionais
Para descobrir a Verona romana em profundidade — da Arena à Via Postumia, da Porta Borsari ao fórum sob a Piazza delle Erbe, até à Ponte Pietra e ao Teatro Romano — o Guide Center Verona propõe a Visita Guiada Verona Romana: um percurso guiado com guias autorizados que conhecem cada estrato desta cidade.
FAQ
Verona conserva um património romano excecional: a Arena (anfiteatro do século I d.C., o terceiro maior ainda existente no mundo), o Teatro Romano (século I a.C.) com o Museu Arqueológico, a Porta Borsari (antiga Porta Iovia, século I a.C./d.C.), a Porta Leoni, a Ponte Pietra (a mais antiga da cidade, com os seus dois arcos romanos originais ainda visíveis), o traçado do decumanus maximus ao longo do Corso Porta Borsari e os restos do fórum romano sob a Piazza delle Erbe.
Na época romana, a porta chamava-se Porta Iovia, do templo dedicado a Júpiter Lustral que se erguia nas proximidades. Era a entrada principal da cidade na Via Postumia. O nome Borsari surge na Idade Média, dos bursarii — os soldados que aqui estacionavam para cobrar as portagens sobre as mercadorias em trânsito.
Sim, a Ponte Pietra é a ponte romana mais antiga de Verona. Os dois arcos do lado esquerdo são ainda os originais em pedra branca. Os restantes arcos são medievais (scaligeri, séculos XIII-XIV) e venezianos (1520). A 24 de abril de 1945, a ponte foi explodida pelos alemães em retirada: foi reconstruída entre 1957 e 1959 recuperando do leito do rio cada bloco original e voltando a pô-lo no seu lugar.
Sì, Ponte Pietra è il ponte romano più antico di Verona. Le due arcate sul lato sinistro sono ancora quelle originali in pietra bianca. Le altre arcate sono medievali (scaligere, XIII–XIV sec.) e veneziane (1520). Il 24 aprile 1945 il ponte fu fatto saltare dai tedeschi in ritirata: venne ricostruito tra il 1957 e il 1959 recuperando dal letto del fiume ogni singolo blocco originale e rimettendolo al suo posto.
Sim, o Teatro Romano é um dos monumentos romanos menos frequentados, mas mais fascinantes de Verona. Construído no século I a.C., aproveita o declive do Colle di San Pietro para a cavea. Por cima encontra-se o Museu Arqueológico, com uma das mais importantes coleções de achados romanos da região. Todos os verões acolhe a Estate Teatrale Veronese: assistir a um espetáculo no teatro romano com a cidade ao fundo é uma experiência rara.