Romeu e Julieta em Verona: a história real por trás do mito de Shakespeare
Todos os anos milhões de turistas vêm a Verona à procura de uma varanda, de um túmulo, de um pátio. Procuram algo que Shakespeare imortalizou em 1596, quase trezentos anos depois de os factos — se é que existiram — terem ocorrido. O paradoxo é fascinante: uma história que talvez nunca tenha acontecido transformou para sempre uma cidade real.
Mas por trás da lenda há algo mais complexo e interessante do que se imagina. A história de Romeu e Julieta não nasceu da fantasia de Shakespeare: chegou-lhe após uma viagem de quase um século, através da Itália, da França e de Inglaterra, passando pelas mãos de pelo menos cinco escritores diferentes. E Verona já estava no centro de tudo, muito antes de o Bardo ter posto a pena no papel.
Antes de Shakespeare: Luigi da Porto e o nascimento da história
A história de Romeu e Julieta nasce em 1531, não em Inglaterra mas no Véneto. É Luigi da Porto, um nobre capitão vicentino que ficou paralisado durante as guerras de Cambrai, quem a escreve pela primeira vez em forma literária na sua “Historia novellatamente ritrovata di due nobili amanti”. Da Porto situa a história em Verona, nos tempos do senhorio de Bartolomeo della Scala — o irmão de Cangrande, o mesmo que acolhera Dante na cidade.
A escolha de Verona não é casual. Da Porto tinha lido Dante, e sabia que no canto VI do Purgátorio o Sumo Poeta citava explicitamente os Montecchi e os Cappelletti como famílias rivais, símbolo das lutas de facção que ensanguentavam a Itália medieval. Esses nomes já eram conhecidos, já carregados de história. Da Porto tomou-os e construiu sobre eles uma história de amor trágico.
Os Montecchi — ou Monticoli, como eram mais frequentemente chamados — eram uma casa gibelina que realmente existiu em Verona. Os Cappelletti eram por sua vez uma família güelfa de Cremona, que a tradição tinha durante muito tempo confundido com os veroneses. O primeiro rasto documentado de uma família Cappelletti em Verona data apenas de 1427: um século depois dos factos que a lenda narra.
A longa viagem até Shakespeare: de Bandello ao Bardo
A história de da Porto agradou imediatamente e começou a circular. Em 1554 Matteo Bandello, prolífico novelista italiano, retomou-a na sua coleção e enriqueceu-a com detalhes vivos: acrescentou a figura da ama, descreveu com precisão os lugares de Verona, tornou as personagens mais realistas. Foi a versão de Bandello que se difundiu por toda a Europa.
Do francês de Pierre Boaistuau, que a traduziu em 1559 acrescentando moralismo e sentimento, a história passou para o inglês: primeiro como prosa na coleção de William Painter (1567), depois como poema narrativo de Arthur Brooke em 1562. Foi precisamente este último texto — a “Tragicall History of Romeus and Juliet” de Brooke — a fonte principal que Shakespeare tinha entre mãos quando escreveu a sua tragédia entre 1594 e 1596.
Há um detalhe que esta viagem entre línguas revela com clareza: a mudança de nome de Cappelletti para Capúletos. Da Porto usava “Cappelletti”, e o mesmo fazia Bandello. Mas quando Boaistuau traduziu para francês, os nomes italianos deformaram-se ligeiramente na passagem, como acontece com frequência. Brooke retomou essa forma adaptada, e Shakespeare herdou-a quase sem a modificar. O resultado é que o nome com que o mundo inteiro conhece a família de Julieta — Capúletos em português, Capulet em inglês — é uma deformação acumulada de tradução em tradução. Os verdadeiros Cappelletti veroneses, a terem existido, não teriam reconhecido o seu próprio nome.
Shakespeare nunca pisou Verona. Conheceu a cidade através das páginas de outros, e transformou-a no cenário mais famoso da literatura mundial. O Príncipe de Verona — “Escalo” no texto original — remete claramente para os Scaligeri. A família rival tem o nome dos seus inimigos históricos. A Verona que Shakespeare imagina está construída sobre uma realidade medieval autêntica, filtrada através de décadas de reescrituras.
A Casa de Julieta: como nasce um mito turístico
O pátio da Via Cappello 23 é hoje um dos lugares mais visitados de Itália. No entanto, a sua história como “Casa de Julieta” é muito mais recente do que se pensa. O edifício estava documentado em 1351 como simples “hospitium a cappello” — um albergue com o símbolo do chapéu — de propriedade dos herdeiros de um tal Antonio Cappello. A ligação com os Capúletos shakespearianos ocorreu muito mais tarde, por atribuição popular: os turistas do século XIX, já fascinados pela tragédia, procuravam insistentemente os lugares da história e o brasão do chapéu na entrada parecia prova suficiente.
A varanda, símbolo por excelência da cena mais famosa do teatro mundial, foi acrescentada ao edifício no século XX, adaptando um antigo sarcófago. A estátua de Julieta no pátio é obra do escultor Nereo Costantini e data de 1969. O Club di Giulietta — a associação que responde às cartas de amor enviadas de todo o mundo a “Julieta, Verona, Itália” — nasceu em 1972. O mito construiu-se camada a camada, em tempos relativamente recentes, em torno de uma história que nunca teve uma única fonte histórica definitiva.
No entanto, isso não o torna menos real. Um lugar que durante décadas recebeu cartas de amor de todos os cantos do mundo, que inspirou filmes e espetáculos, que mudou a percepção global de uma cidade, tem uma consistência cultural própria que vai muito além da questão da autenticidade histórica.
A Verona que Shakespeare imaginou: os lugares do mito
Percorrer a Verona shakespeariana significa mover-se em dois planos sobrepostos: o histórico medieval — a Verona dos Scaligeri, das facções, das lutas entre Güelfos e Gibelinos — e o literário, construído por da Porto, Bandello, Brooke e finalmente Shakespeare sobre essa realidade.
A Piazza dei Signori é o coração político da Verona scaligera, o lugar onde o Príncipe de Verona teria exercido o seu poder. É aqui que na tragédia são pronunciados os veredictos, as condenações, as amnísticas. Os palácios dos Scaligeri que a rodeiam são os mesmos que Dante frequentava: a sobreposição entre a Verona de Dante e a de Shakespeare no mesmo espaço físico é um dos detalhes mais extraordinários desta cidade.
A Igreja de Santa Anastasia, obra-prima gótica do Trecento, serve de pano de fundo à Verona medieval que as personagens da história teriam habitado. A Piazza delle Erbe — o antigo fórum romano, coração comercial da cidade medieval — é o tipo de espaço aberto onde as rixas entre as duas facções poderiam ter deflagrado a qualquer momento. A Casa de Romeu, na Via Arche Scaligere, pertenceu realmente a uma família Montecchi: os Monticoli, casa gibelina documentada na Verona dos séculos XIII e XIV.
E depois há o Túmulo de Julieta, num antigo convento franciscano a pouca distância do centro: um sarcófago medieval de mármore que a tradição associou à protagonista da lenda. Também aqui, o frade Lourenço da história shakespeariana evoca os franciscanos que geriam aquele convento. Os detalhes encaixam de forma sugestiva, mesmo quando a história é claramente literária.
Shakespeare e Verona: outra peça que poucos recordam
Romeu e Julieta não é a única peça de Shakespeare ambientada em Verona. “Os Dois Cavalheiros de Verona” — considerada uma das suas primeiras comédias, escrita provavelmente por volta de 1590 — narra a história de dois amigos, Valentim e Protéu, que partem de Verona para Milão e se veem envolvidos em intrigas sentimentais e aventuras na floresta. A cidade de Verona aparece como ponto de partida e de regresso, como o lugar das raízes e da identidade.
O facto de Shakespeare ter escolhido Verona como cenário para duas obras diferentes — uma tragédia e uma comédia — não é irrelevante. Na sua imaginação, e na dos seus contemporâneos, Verona era já sinónimo de Itália romântica e dramática: uma cidade suficientemente conhecida para ser credível como cenário, suficientemente distante para poder ser livremente reinventada.
FAQ
Não existem provas históricas documentadas de que Romeu e Julieta fossem pessoas reais. A história nasce como novela literária em 1531, escrita por Luigi da Porto, que se inspirou nos Montecchi e nos Cappelletti citados por Dante no Purgátorio. Os Montecchi (ou Monticoli) eram uma casa gibelina que realmente existiu em Verona, enquanto os Cappelletti eram principalmente uma família güelfa de Cremona. Shakespeare transformou depois esta história numa tragédia imortal em 1596, sem nunca ter visitado Verona.
Não. William Shakespeare nunca visitou Verona. Conheceu a cidade através das obras literárias italianas que circulavam em Inglaterra, em particular o poema de Arthur Brooke de 1562, por sua vez baseado em versões italianas e francesas da história original de Luigi da Porto. A Verona que Shakespeare imagina é uma construção literária, não uma descrição direta.
O edifício da Via Cappello 23 é um palácio medieval documentado desde 1351, originalmente um albergue com o brasão do chapéu. A ligação com os Capúletos shakespearianos ocorreu por atribuição popular no século XIX, quando os turistas procuravam os lugares da história. A famosa varanda foi acrescentada no século XX, e a estátua de Julieta data de 1969. Isto não retira nada ao encanto do lugar, que tem uma consistência cultural própria, independente da questão da autenticidade histórica.
Os lugares principais do percurso shakespeariano em Verona são: o Túmulo de Julieta num antigo convento franciscano, a Casa de Julieta com a varanda na Via Cappello, a Casa de Romeu na Via Arche Scaligere, a Piazza dei Signori (sede do poder scaligero, o “Príncipe de Verona” da tragédia), a Igreja de Santa Anastasia e a Piazza Bra com o Anfiteatro.
Shakespeare ambientou em Verona também “Os Dois Cavalheiros de Verona”, considerada uma das suas primeiras comédias (escrita por volta de 1590). A comédia narra a história de dois amigos que partem de Verona para Milão e se veem envolvidos em intrigas sentimentais. Verona aparece também noutros textos shakespearianos como pano de fundo ou referência.
Para visitar os lugares da Verona shakespeariana com a profundidade que esta história estratificada merece, a Verona Guide propõe a Visita Guiada Verona Shakespeariana: um itinerário pelo centro histórico que parte do Túmulo de Julieta e atravessa a Casa de Julieta com subida à varanda, a Casa de Romeu, a Piazza dei Signori, a Igreja de Santa Anastasia e a Piazza Bra. As guias narram os entrecruzamentos entre história, lenda e literatura que tornaram Verona a cidade do amor mais famosa do mundo.