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Walking tour em Verona: a cidade que só se lê a pé

20/05/2026
Arena di Verona al tramonto, vista dalla piazza con pavimentazione in ciottoli e una persona in bicicletta davanti agli archi dell’anfiteatro.

Era o dia 16 de setembro de 1786 quando Johann Wolfgang Goethe entrou em Verona pela primeira vez. O escritor alemão — trinta e sete anos, já famoso em toda a Europa, viajava sob um nome falso para não ser reconhecido — estava a realizar a sua primeira viagem por Itália. A primeira grande cidade que encontrou, descendo do passo do Brenner, era Verona.

O que o impressionou não foi nenhum palácio, nenhuma igreja, nenhuma obra-prima pictórica. Foi o Anfiteatro. Desceu da carruagem, entrou no anfiteatro a pé, subiu até ao topo, olhou para baixo. E escreveu no seu diário: “Este anfiteatro é portanto o primeiro monumento notável da antiguidade que vi, e em que estado de conservação!” Acabava de fazer o que os viajantes do Grand Tour faziam por definição: tinha caminhado dentro da história.

Goethe não o sabia, mas estava a repetir algo que os visitantes de Verona faziam há séculos. Porque Verona é uma cidade que não se pode compreender parado. Tem de se ler caminhando.

Uma cidade projetada para o passo

Quando os romanos fundaram Verona no século I a.C., construirão-na em torno de um sistema de ruas pensado para o movimento. O cardo — o eixo norte-sul — e o decumano — o eixo leste-oeste — cruzavam-se no fórum, que hoje é a Piazza delle Erbe. A partir desse ponto, todo o resto da cidade se organizava em função do passo humano: as distâncias, as proporções dos edifícios públicos, a posição do anfiteatro fora das muralhas para facilitar a saída do público.

O próprio Anfiteatro é uma máquina para caminhar: os sessenta e quatro vomitórios — assim se chamam as entradas — foram projetados para fazer entrar e sair trinta mil pessoas no menor tempo possível. O sistema funcionava tão bem que ainda hoje, dois mil anos depois, é o mesmo princípio utilizado para projetar estádios modernos.

Essa lógica transmitiu-se a toda a cidade. Verona é compacta, densa, estratificada. Cada época deixou traços sobre as anteriores, e a forma de os ler é uma só: caminhar devagar, levantar o olhar, parar onde algo não bate certo. Porque é frequentemente aí que se esconde a história mais interessante.

O Grand Tour: quando Verona se tornou uma etapa obrigatória

Entre os séculos XVII e XIX, os jovens aristócratas e intelectuais da Europa do norte realizavam o Grand Tour: uma longa viagem de formação pela Itália, em busca da antiguidade clássica e do Renascimento. Verona era uma das primeiras etapas significativas após a travessia alpina, e quase todos se detinham aqui.

O que faziam era, em essência, um walking tour. Desciam da carruagem, contratavam um cicerone — assim se chamavam os guias locais da época — e caminhavam pela cidade durante dias. Os seus diários e cartas estão cheios de descrições de Verona vivida a pé: as praças, os monumentos romanos, as igrejas, os mercados. O próprio Goethe, na noite do mesmo dia em que tinha visitado o Anfiteatro, parou para observar um jogo de péla entre cavalheiros veroneses e vicentinos nas proximidades, e descreveu-o com o mesmo cuidado com que tinha descrito os monumentos antigos.

Esses viajantes tinham compreendido algo que continua a ser verdade: Verona não é uma cidade de atrações individuais para assinalar numa lista. É uma experiência contínua, que se constrói passo a passo, onde cada curva pode levar a algo inesperado.

O que se vê caminhando que não se vê de outra forma

Há um objeto em Verona que quase nenhum turista nota, mesmo passando a poucos centímetros de distância. Encontra-se no arco que liga a Piazza delle Erbe à Piazza dei Signori — o Arco della Costa, como é conhecido — e está pendurado em cima, na abóbada do arco: uma grande costela, provavelmente de baleia, que pende ali há pelo menos três séculos.

O arco foi construído em época veneziana para permitir aos magistrados deslocarem-se da sua residência, a Domus Nova, para o Palazzo della Ragione sem terem de descer à praça e misturar-se com a multidão — evitando assim o risco de serem abordados por corruptores ou mal-intencionados. A costela foi pendurada sob ele provavelmente entre os séculos XVII e XVIII. A hipótese mais aceite é que fosse uma insígnia publicitária de uma botica: na época acreditava-se que o pó obtido do osso de baleia tinha propriedades curativas. A farmácia por baixo ainda existe hoje. A lenda, por sua vez, diz que a costela cairá no dia em que passar sob ela uma pessoa honesta e pura de coração.

Este é exatamente o tipo de detalhe que só se vê a pé, só levantando o olhar no ponto certo. De uma carruagem, de um autocarro, de um ecrã não existe. Só existe se se caminhar por baixo dele.

As praças como sistema: Piazza delle Erbe, Piazza dei Signori e as Arche Scaligere

Uma das coisas que mais impressiona quem caminha pelo centro histórico de Verona é a continuidade entre os espaços. A Piazza delle Erbe, a Piazza dei Signori e a pequena praça das Arche Scaligere não são três lugares separados: são um sistema único, ligado por passagens, arcos e vielas, que conta três mil anos de história urbana em poucas centenas de metros.

A Piazza delle Erbe fica exatamente onde estava o fórum romano. Ao centro, a fonte de Madonna Verona: a estátua é uma figura romana do século IV, reutilizada na Idade Média como símbolo da cidade. Nas bordas, as casas Mazzanti com os seus afrescos do século XVI, a Torre dei Lamberti medieval, a Domus Mercatorum do século XIV, a coluna com o leão de São Marcos veneziano. Cada edifício fala uma língua diferente, e ainda assim a praça funciona como um conjunto coerente.

Através do Arco della Costa — levantando o olhar para a costela — entra-se na Piazza dei Signori, mais recolhida, quase uma sala ao ar livre. Aqui o centro do poder scaligero: os palácios onde viviam e governavam os Della Scala, onde Dante era hóspede, onde hoje se situa o Café Dante. Mais alguns passos, e chega-se às Arche Scaligere: os túmulos monumentais dos Scaligeri em gótico florido, construídos num espaço mínimo adjacente à igreja de Santa Maria Antica. Um cemitério privado de toda uma dinastia, em pleno centro histórico, visitável passando-lhe ao lado a pé.

Castelvecchio, a Ponte Scaligero e a cidade que muda de cara

Um walking tour de Verona que se preze não se fica pelas praças centrais. Caminhando para oeste ao longo do Lungadige, chega-se a Castelvecchio: a fortaleza medieval dos Scaligeri, hoje museu, com a sua ponte ameada sobre o rio. A Ponte Scaligero é um dos poucos exemplos na Europa de ponte medieval defensiva ainda perfeitamente conservada — percorrê-la a pé significa caminhar sobre o Adige numa estrutura construída em 1354, de onde a cidade aparece de forma completamente diferente em relação à perspetiva da margem.

Depois há a igreja de Sant’Anastasia, a obra-prima gótica veronesa: a fachada inacabada que dá para uma praça silenciosa, as duas figuras corcundas que suportam as pia de água bênta no interior — figuras humildes e grotescas à entrada de um espaço magnífico. Detalhes que só se veem entrando, só caminhando lá dentro.

Cada etapa do percurso acrescenta uma camada de história: romana, medieval, scaligera, veneziana, risorgimentale, contemporânea. Todas visíveis no mesmo itinerário, todas legíveis a pé, todas ligadas por ruas que em Verona mantêm ainda — quase por milagre — a estrutura do seu traçado original.

FAQ

Quanto tempo é necessário para visitar o centro histórico de Verona a pé?

O centro histórico de Verona é compacto e completamente percorrível a pé. Um walking tour clássico que inclui a Piazza delle Erbe, a Piazza dei Signori, as Arche Scaligere, Castelvecchio e a Piazza Bra demora cerca de duas horas. Acrescentando visitas interiores ao Anfiteatro e à Casa de Julieta, e uma paragem em Sant’Anastasia, chega-se facilmente a meio dia.

Verona é adequada para visitar a pé?

Verona é uma das cidades italianas mais adequadas para visitar a pé. O centro histórico é predominantemente pedonal, as distâncias entre os principais monumentos são curtas, e as ruas medievais mantêm uma escala urbana que favorece o passeio lento. É uma cidade pensada — desde o seu traçado romano original — para ser percorrida a pé.

Qual é o melhor itinerário para um walking tour em Verona?

O itinerário clássico parte da Piazza Bra e do Anfiteatro, continua para a Casa de Julieta, atravessa a Piazza delle Erbe e a Piazza dei Signori com as Arche Scaligere, e chega a Castelvecchio com a Ponte Scaligero. Uma variante recomendada inclui também a Ponte Pietra e Sant’Anastasia. A ordem pode ser invertida consoante o ponto de partida.

O que é o Arco della Costa em Verona?

O Arco della Costa é a passagem coberta que liga a Piazza delle Erbe à Piazza dei Signori. Foi construído em época veneziana para permitir aos magistrados deslocarem-se com segurança entre a Domus Nova e o Palazzo della Ragione. Sob ele pende uma grande costela, provavelmente de baleia, que dá nome ao arco. A lenda diz que a costela cairá no dia em que passar sob ela uma pessoa honesta e pura de coração.

Goethe esteve realmente em Verona?

Sim. Johann Wolfgang Goethe visitou Verona a 16 de setembro de 1786, durante a sua primeira viagem por Itália. A cidade foi a sua primeira grande etapa italiana após cruzar os Alpes. Na sua Viagem a Itália descreveu o Anfiteatro com grande admiração, definindo-o como o primeiro monumento notável da antiguidade que alguma vez tinha visto. As páginas sobre Verona estão entre as primeiras do livro.

Para quem queira fazer este percurso com a guia que sabe onde parar e o que contar, a Verona Guide propõe a Visita Guiada Le Meraviglie di Verona: um itinerário a pé pelo centro histórico que atravessa Castelvecchio, a Casa de Julieta, a Piazza dei Signori, a Piazza delle Erbe, as Arche Scaligere, a Piazza Bra e o Anfiteatro, com possibilidade de visita interior e de prolongar o percurso até Sant’Anastasia. Um passeio pensado para quem quer conhecer Verona em profundidade, passo a passo.