O que ver em Verona: 15 lugares (incluindo os que os turistas não encontram)

Verona é uma das cidades mais fotografadas de Itália. As imagens que circulam, porém, são sempre as mesmas – a varanda de Julieta, a Arena, a Piazza delle Erbe – e contam mais ou menos sempre a mesma Verona. Aquela que os turistas encontram facilmente, que é belíssima, mas que não conta a cidade inteira.
Nesta lista, a par dos grandes clássicos – que não deve mesmo perder – encontra outros lugares, contados com o detalhe que os guias tradicionais deixam de fora. E encontra também os sítios da Verona verdadeira, aqueles que os veroneses conhecem e frequentam, e que mudam a forma como conhece a cidade.
Preparado? Começamos pelos clássicos, contados à nossa maneira.
Os clássicos — há sempre algo que não lhe contaram
1. A Arena de Verona — a estrutura romana soterrada que ninguém procura
Sabe quantas pessoas entram na Arena todos os anos sem nunca olhar para baixo? Quase todas. O pavimento atual do anfiteatro cobre uma arena original mais profunda, com estruturas subterrâneas que incluíam as jaulas das feras e os corredores dos gladiadores. Mas há outra coisa que pouquíssimos sabem: a Arena é mais antiga do que o Coliseu. É de 30 d.C., o Coliseu de 80. E, ainda assim, nos guias a hierarquia aparece sempre invertida.
O outro detalhe que vale a pena: o fragmento de quatro arcos que se ergue isolado no lado norte — a Ala, como lhe chamam os veroneses — é tudo o que resta do anel exterior original. Era feito de setenta e dois arcos em três ordens. Na época ostrogoda, sob o reinado de Teodorico, o anel exterior foi parcialmente desmantelado para dele se retirar pedra de construção. O que vê hoje é um fragmento do que foi.
2. A Piazza delle Erbe — o fórum romano que nunca desapareceu
A praça mais fotografada de Verona é também a mais estratificada. Sob os tijolos que pisa está o fórum romano: a praça central da cidade na Antiguidade, com as mesmas proporções e a mesma orientação de hoje. A fonte ao centro — Madonna Verona — usa uma estátua romana do século IV como elemento decorativo. O leão de São Marcos sobre a coluna é veneziano. As casas Mazzanti têm frescos do século XVI que se vão desvanecendo lentamente.
Olhe para cima ao atravessar a praça: as fachadas mudam de estilo a cada três metros. Gótico, renascentista, barroco, veneziano. É uma estratigrafia arquitetónica vertical. Pouquíssimos reparam nela, por estarem demasiado ocupados a olhar para as bancas do mercado.
3. Castelvecchio e a Ponte Scaligera — o museu mais bonito que provavelmente saltou
Muitos visitantes entram no pátio do Castelvecchio, tiram algumas fotografias à ponte ameada e vão-se embora, perdendo a oportunidade de ver um museu magnífico, tanto pelo conteúdo como pelo edifício que o acolhe. Lá dentro está um dos mais importantes museus de arte medieval do norte de Itália, concebido por Carlo Scarpa nos anos sessenta num projeto considerado uma obra-prima da arquitetura museológica. Scarpa deixou visíveis os cortes, as estratificações das paredes, os desníveis entre épocas diferentes. O museu não esconde a história: mostra-a.
A Ponte Scaligera é de 1354. Percorrê-la a pé — algo que se pode fazer gratuitamente — dá uma perspetiva sobre o Ádige e sobre as muralhas da fortaleza que não se tem de mais nenhum ponto. É uma das pontes medievais defensivas mais bem conservadas da Europa.
4. As Arche Scaligere — um cemitério dinástico a céu aberto no centro histórico
A trinta segundos da Piazza dei Signori, atrás de um gradeamento de ferro forjado que muitos turistas confundem com a vedação de um palácio privado, estão os túmulos góticos da família Scaligeri. Cangrande I, Mastino II, Cansignorio: os três senhores mais poderosos da Verona medieval, sepultados em sarcófagos equestres de quatro metros de altura, sob baldaquinos de mármore trabalhado, com esculturas que inspiraram séculos de arte europeia.
Dante foi hóspede naqueles palácios. As Arche foram construídas depois da sua morte, mas ele caminhou a poucos passos de onde hoje estão os túmulos dos seus mecenas. Se leu o artigo da nossa magazine sobre Dante em Verona, já sabe porque este lugar tem um peso literário enorme.
5. A basílica de San Zeno — a obra-prima românica de que nunca se fala o suficiente
San Zeno fica a apenas dez minutos a pé da Arena: fora dos circuitos clássicos do centro histórico e, ainda assim, a caminhada compensa. A basílica é considerada um dos mais importantes exemplos de arquitetura românica em Itália: as portas de bronze do século XII com os baixos-relevos bíblicos, o tríptico de Mantegna no altar-mor, a cripta onde está sepultado o padroeiro da cidade.
Dante cita-a no canto XVIII do Purgatório: o abade de San Zeno é uma das personagens da Comédia. E no belo jardim do claustro adjacente, num dia de sol, percebe-se porque Verona mereceu a classificação da UNESCO.
Os lugares inesperados — aqueles que mudam a visita
6. O Arco della Costa — o osso de baleia suspenso entre as duas praças
Entre a Piazza delle Erbe e a Piazza dei Signori há um arco coberto. Ao levantar os olhos para a abóbada, encontra uma grande costela — provavelmente de baleia — pendurada ali há pelo menos três séculos. O arco chama-se precisamente Arco della Costa por causa desse osso.
A hipótese mais sólida é que fosse a tabuleta de uma botica: na época acreditava-se que o pó de osso de baleia tinha propriedades curativas. A farmácia por baixo existe ainda hoje. A lenda, por seu lado, diz que a costela cairá no dia em que uma alma honesta e pura passar debaixo do arco. Esperamos há séculos e ainda nada aconteceu.
7. O Jardim Giusti — o Renascimento escondido do outro lado do rio
Na margem esquerda do Ádige, no bairro de Veronetta, esconde-se um dos mais belos jardins renascentistas de Itália. O Jardim Giusti foi criado no século XV e Goethe visitou-o durante a sua estadia em Verona, em 1786 — a mesma em que ficou deslumbrado com a Arena. Mozart passou por aqui em 1770, aos catorze anos.
Ciprestes altos como torres, terraços panorâmicos, uma gruta artificial, um pequeno labirinto e uma vista de postal sobre a cidade. A entrada é paga e vale cada cêntimo. O melhor momento é o fim da tarde, quando a luz sobre os edifícios de pedra vermelha se torna inesquecível.
8. A Via Sottoriva — a rua medieval que ninguém fotografa
A dois minutos da Piazza delle Erbe, ao longo da margem do Ádige, está uma das ruas mais intactas do centro medieval. A Via Sottoriva conserva ainda os pórticos baixos originais, as trattorias com ementas escritas à mão, as lojas que mantêm o mesmo aspeto há décadas. É aquilo que todos procuram quando dizem querer descobrir a “Verona verdadeira”, e fica a quatro minutos do ponto mais concorrido da cidade.
Não encontrará lojas de souvenirs, mas antes veroneses a almoçar.
9. A Porta Borsari — a passagem romana no tecido urbano
Subindo o Corso Cavour em direção ao centro, passa-se sob um arco romano do século I d.C. que a maior parte dos turistas atravessa sem parar. É a Porta Borsari: um dos dois grandes arcos de entrada da cidade romana original, com a fachada em pedra branca ainda intacta em dois pisos de janelas cegas.
Pare do outro lado e observe a estrutura: o que vê é a frente de uma porta de cidade romana de cerca de 40 d.C., em perfeitas condições. Vale a pena saber que este era também o traçado do antigo Palio veronês — a corrida a pé a que Dante assistiu durante a sua estadia e que imortalizou no canto XV do Inferno, comparando uma figura aos que correm em Verona atrás do pano verde pelo campo.
10. O Castel San Pietro e o funicular — a vista que os veroneses guardam para si
No cimo da colina acima do Teatro Romano há um terraço de onde se vê toda a Verona: a Arena, as praças, o rio, as colinas do Valpolicella ao fundo. Os turistas procuram-no, mas muitos não sabem que existe um funicular que sobe por poucos euros. O percurso a pé pelas escadarias medievais também compensa: sombreado, silencioso, com perspetivas inesperadas sobre os telhados.
O momento ideal é uma hora antes do pôr do sol. A luz rasante sobre a pedra vermelha veronesa cria uma paleta que não se esquece. É o ponto de vista preferido dos fotógrafos e dos veroneses que fogem da multidão.
Os lugares dos circuitos — onde a história se compreende mesmo com um guia
11. A Piazza dei Signori (Piazza Dante) — o coração do poder scaligero
Os veroneses chamam-lhe Piazza Dante, e não Piazza dei Signori. A estátua do poeta ao centro explica porquê: Dante viveu aqui, hóspede dos palácios que rodeiam a praça, enquanto escrevia o Paraíso. A lápide com os versos de Cacciaguida está na parede de um desses palácios. O Caffè Dante continua ali, com o mesmo nome há um século.
A praça é também o ponto onde se cruzam todos os grandes temas da história veronesa: os Scaligeri, Dante, o domínio veneziano, o Risorgimento. É o lugar onde a sobreposição entre séculos diferentes é mais densa e mais legível. É uma das praças mais bonitas de Itália e, com um guia, cada palácio transforma-se numa história.
12. O Teatro Romano e o Museu Arqueológico — o lado menos conhecido da colina
Na margem esquerda do Ádige, aos pés da colina de San Pietro, está um teatro romano do século I a.C. em condições extraordinárias. O teatro acolhe ainda hoje concertos e espetáculos de verão – os mais bonitos à noite, com as colinas ao fundo – uma daquelas experiências que ficam.
Acima do teatro, no convento agostiniano escavado na colina, está o Museu Arqueológico: mosaicos romanos, bronzes, cerâmicas e um terraço panorâmico com uma das melhores vistas sobre a cidade. É sistematicamente subestimado face à Arena, o que significa que quase sempre o encontrará vazio.
13. A basílica de Sant’Anastasia — os dois corcundas à entrada e o dragão de Pisanello
Sant’Anastasia é a maior igreja gótica de Verona. A fachada ficou inacabada — em cinco séculos ninguém chegou a acordo sobre como terminá-la. No interior, há dois detalhes que quase todos recordam: as pias de água benta à entrada, sustentadas por duas figuras corcundas e contorcidas que parecem emergir do pavimento como fantasmas de pedra, e o fresco de Pisanello na capela Pellegrini, com São Jorge e a princesa, considerado uma das maiores obras-primas do gótico internacional em Itália.
Se está a seguir o percurso da Verona shakespeariana, Sant’Anastasia é um dos lugares da história. Se, pelo contrário, está a seguir o percurso de Dante, também aqui existe uma ligação: os Alighieri — os descendentes do poeta que permaneceram em Verona — tinham a sua casa mesmo em frente da igreja.
14. A margem esquerda do Ádige — o percurso sagrado da pequena Jerusalém
Ao atravessar o Ádige em direção ao bairro de Veronetta, entra numa parte da cidade que a maioria dos turistas nunca alcança. É aqui que passa o percurso da Verona “o minor Hierusalem”: as igrejas paleocristãs construídas pelo arcediago Pacífico no século IX para reproduzir os lugares santos de Jerusalém, o selo com a inscrição VERONA MINOR HIERUSALEM e a igreja que guarda mais de 30.000 relíquias de santos organizadas por calendário litúrgico — um caso único na Europa.
15. O Museu do Ádige e a Alfândega Veneta — o porto fluvial que ninguém sabe que existe
Há em Verona um museu que conta algo fundamental: a relação da cidade com o seu rio. O Museu do Ádige fica na Dogana Veneta dei Filippini, a antiga alfândega fluvial onde as mercadorias eram taxadas antes de entrar e sair da cidade. Documentos, instrumentos, mapas, testemunhos do porto mercantil medieval.
A melhor forma de lá chegar é pelo rio. Se fizer rafting no Ádige, a alfândega é uma das três paragens temáticas do percurso: vê-a primeiro do bote e depois entra. É um daqueles raros casos em que o meio de transporte faz parte da experiência.
Informações Adicionais
Os lugares desta lista regressam, em ordens e com leituras diferentes, em alguns dos nossos percursos com guia turístico autorizado: As Maravilhas de Verona para os grandes clássicos do centro histórico, Verona Medieval para o período scaligero entre a Piazza dei Signori e a Ponte Scaligera, Verona Misteriosa para os detalhes e as histórias menos conhecidas, Verona e o seu rio para a relação entre a cidade e o Ádige. Todos os percursos estão disponíveis em italiano e nas principais línguas estrangeiras.
FAQ
Num dia consegue ver o coração da cidade: Arena, Piazza delle Erbe, Arco della Costa, Piazza dei Signori com as Arche Scaligere, Castelvecchio e Ponte Scaligera. Acrescentando uma paragem em Sant’Anastasia e a subida ao Castel San Pietro para o pôr do sol, o dia fica completo. O segredo é começar cedo: as praças centrais enchem-se depois das dez.
Os lugares menos frequentados mas extraordinários são: o Jardim Giusti do outro lado do Ádige, a Via Sottoriva ao longo da margem, o Teatro Romano com o Museu Arqueológico, a Biblioteca Capitolare (a mais antiga do mundo ainda em atividade), o Museu do Ádige na Alfândega Veneta e as igrejas paleocristãs da margem esquerda.
Sem dúvida. O segundo dia permite explorar a margem esquerda com o Jardim Giusti e o Teatro Romano, chegar a San Zeno, caminhar ao longo dos Lungadige e talvez fazer rafting no Ádige para ver a cidade a partir do rio. Dois dias são o mínimo para compreender Verona a sério.
A primavera (abril e maio) e o outono (setembro e outubro) são as melhores épocas: temperaturas amenas, menos multidões, luz excelente. O verão é a época da temporada lírica na Arena — os concertos noturnos sob as estrelas são uma experiência única, mas as praças estão muito cheias durante o dia.
Sim. As praças são todas pedonais, as distâncias são curtas e há experiências pensadas também para os mais novos: o rafting no Ádige, o funicular para o Castel San Pietro, os jardins do claustro de San Zeno. O Museu Cívico de História Natural — um dos maiores de Itália — é outra excelente opção com crianças.