{"id":10613,"date":"2026-06-23T09:53:07","date_gmt":"2026-06-23T08:53:07","guid":{"rendered":"https:\/\/veronaguide.it\/?p=10613"},"modified":"2026-06-29T08:42:47","modified_gmt":"2026-06-29T07:42:47","slug":"verona-medieval-a-cidade-que-uma-so-familia-transformou-para-sempre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/veronaguide.it\/pt-pt\/magazine-pt-pt\/verona-medieval-a-cidade-que-uma-so-familia-transformou-para-sempre\/","title":{"rendered":"Verona medieval: a cidade que uma s\u00f3 fam\u00edlia transformou para sempre"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Existe um curioso paradoxo no modo como se visita Verona. A maior parte dos turistas chega \u00e0 procura de Romeu e Julieta \u2014 uma hist\u00f3ria de fic\u00e7\u00e3o ambientada no s\u00e9culo XIV \u2014 e caminha, sem o saber, entre os monumentos reais desse mesmo s\u00e9culo, quase sem reparar neles. As Arche Scaligere ficam a cem metros da Casa de Julieta. San Zeno, uma das obras-primas do rom\u00e2nico italiano, est\u00e1 a dez minutos a p\u00e9 da Arena. E, no entanto, permanecem em segundo plano, menos fotografados, menos procurados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 uma pena, porque a Verona medieval \u00e9 extraordin\u00e1ria. E n\u00e3o no sentido gen\u00e9rico em que se diz que toda cidade italiana \u00e9 extraordin\u00e1ria: no sentido de que aqui, num per\u00edmetro de poucos quil\u00f3metros, uma s\u00f3 fam\u00edlia deixou uma marca arquitet\u00f3nica e art\u00edstica que tem poucos equivalentes na Europa. Chamavam-se Della Scala. Conhecemo-los como Scaligeri. E Verona, em boa parte, \u00e9 ainda a cidade que eles constru\u00edram.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Uma fam\u00edlia de mercadores que se tornou dinastia<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As origens dos Scaligeri n\u00e3o s\u00e3o as de uma grande casa nobre. No in\u00edcio do s\u00e9culo XIII, o chefe de fam\u00edlia era Jacopino della Scala, um abastado mercador de l\u00e3, mas sem t\u00edtulos nobili\u00e1rquicos. O que \u00e9 certo \u00e9 que o seu neto Mastino, em 1262, \u00e9 eleito Capit\u00e3o do Povo de Verona: um t\u00edtulo de garantia num momento em que a cidade est\u00e1 dilacerada pelos confrontos entre guelfos e gibelinos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A partir desse momento, a hist\u00f3ria muda de ritmo. Em menos de um s\u00e9culo, os Della Scala passam de mercadores a senhores de um dom\u00ednio que se estende por boa parte do nordeste italiano \u2014 Vicenza, P\u00e1dua, Treviso. O apogeu chega com o governo de Cangrande I (1308-1329): condottiero, mecenas, amigo de Dante. \u00c9 ele que transforma Verona numa corte capaz de atrair artistas, poetas e intelectuais de toda a It\u00e1lia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A fam\u00edlia governa durante 125 anos, at\u00e9 1387, quando as tropas dos Visconti entram na cidade de noite pelas portas abertas pelos conjurados. O \u00faltimo senhor, Antonio, barrica-se na torre de menagem de Castelvecchio com a mulher e os filhos. O povo, cansado, n\u00e3o o defende. \u00c9 o fim de uma dinastia \u2014 mas os seus monumentos est\u00e3o todos ainda ali.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>San Zeno: o lugar onde nasce o Comune<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Bas\u00edlica de San Zeno n\u00e3o \u00e9 apenas a obra-prima rom\u00e2nica da cidade: \u00e9, num certo sentido, o ponto de partida da hist\u00f3ria c\u00edvica de Verona.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O t\u00edmpano do portal \u2014 o baixo-relevo sobre a entrada, realizado por volta de 1138 \u2014 \u00e9 considerado pelos historiadores de arte o ato de nascimento do Comune de Verona. Ao centro, San Zeno, em trajes episcopais, aben\u00e7oa dois ex\u00e9rcitos alinhados a seu lado: cavaleiros \u00e0 direita, pe\u00f5es \u00e0 esquerda. A nobreza fundi\u00e1ria e a burguesia citadina, unidas sob a prote\u00e7\u00e3o do santo padroeiro. Um documento esculpido na pedra, que conta uma cidade que est\u00e1 a escolher como organizar-se.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O portal de bronze \u00e9 outra hist\u00f3ria dentro da hist\u00f3ria. As 48 placas que revestem os dois batentes \u2014 cenas do Antigo e do Novo Testamento, epis\u00f3dios da vida de San Zeno \u2014 foram realizadas por dois mestres diferentes em \u00e9pocas distantes: as placas da esquerda remontam ao s\u00e9culo XI-XII, as da direita ao XII-XIII. Olhando com aten\u00e7\u00e3o, v\u00ea-se a diferen\u00e7a de estilo: as mais antigas t\u00eam um tra\u00e7o mais rude e expressivo, as mais recentes uma composi\u00e7\u00e3o mais elaborada. \u00c9 como ler dois cap\u00edtulos de um livro escritos com um s\u00e9culo de dist\u00e2ncia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No interior, entre frescos e cripta, encontra-se tamb\u00e9m o Ret\u00e1bulo de Andrea Mantegna \u2014 uma das obras mais importantes do Renascimento em terra veronesa. San Zeno \u00e9 uma daquelas igrejas em que se entra pensando ficar vinte minutos e se sai uma hora depois.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Piazza delle Erbe: dois mil anos numa s\u00f3 pra\u00e7a<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Piazza delle Erbe \u00e9 o cora\u00e7\u00e3o comercial de Verona h\u00e1 dois mil anos. Antes era o f\u00f3rum romano. Na Idade M\u00e9dia tornou-se o mercado da cidade. Hoje \u00e9 uma das pra\u00e7as mais animadas do norte de It\u00e1lia, com as bancas do mercado a ocupar ainda o centro exato onde os romanos realizavam as suas assembleias p\u00fablicas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Observando a pra\u00e7a com aten\u00e7\u00e3o, distinguem-se os sinais de todas as \u00e9pocas que aqui se sobrepuseram. A Domus Mercatorum \u2014 a sede medieval da corpora\u00e7\u00e3o dos mercadores \u2014 d\u00e1 para o lado este. A coluna com o le\u00e3o de S\u00e3o Marcos, acrescentada pelos venezianos em 1523, recorda que depois dos Scaligeri chegou tamb\u00e9m a Seren\u00edssima. A fonte ao centro, com a est\u00e1tua chamada Madonna Verona, \u00e9 romana no embasamento e medieval na ta\u00e7a. Cada elemento tem uma idade diferente, e juntos formam uma estratifica\u00e7\u00e3o imposs\u00edvel de encontrar noutro lugar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 tamb\u00e9m um elemento que quase ningu\u00e9m conhece: o Capitello, um baldaquino de m\u00e1rmore do s\u00e9culo XIII no centro da pra\u00e7a, tamb\u00e9m chamado Berlina. Sob ele sentavam-se os podestades na cerim\u00f3nia de tomada de posse, proclamavam-se os \u00e9ditos p\u00fablicos \u2014 e aqui eram expostos ao pelourinho os condenados, os blasfemos e os fraudadores. Na sua base ainda s\u00e3o vis\u00edveis as medidas comerciais veronesas esculpidas na pedra. A Verona medieval n\u00e3o era s\u00f3 arte e poesia.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Piazza dei Signori: a sala de estar do poder scaligero<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A poucos passos da Piazza delle Erbe, atrav\u00e9s do Voltone della Mazzanti, abre-se a Piazza dei Signori \u2014 a que os veroneses chamam tamb\u00e9m Piazza Dante, pela est\u00e1tua do Sumo Poeta ao centro. \u00c9 uma das pra\u00e7as mais elegantes de It\u00e1lia e pouqu\u00edssimo frequentada pelos turistas em compara\u00e7\u00e3o com a vizinha Piazza delle Erbe. Um pouco escondida, um pouco recolhida: exatamente como a queriam os Scaligeri, que a usavam como cora\u00e7\u00e3o pol\u00edtico e residencial do seu senhorio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No lado norte ergue-se o Palazzo del Governo, antiga resid\u00eancia dos Scaligeri, depois sede do poder veneziano, hoje prefeitura. No lado este, o Palazzo della Ragione com a Torre dei Lamberti \u2014 84 metros, a torre mais alta de Verona, de onde se domina toda a cidade. No lado oeste, a Loggia del Consiglio, considerada o primeiro edif\u00edcio renascentista da cidade, constru\u00edda quando os Scaligeri j\u00e1 n\u00e3o estavam h\u00e1 quase um s\u00e9culo, mas o seu tra\u00e7ado urban\u00edstico permanecera intacto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A est\u00e1tua de Dante est\u00e1 aqui por uma raz\u00e3o precisa. O poeta permaneceu em Verona cerca de sete anos no total durante o seu ex\u00edlio: de 1303 a 1304 como h\u00f3spede de Bartolomeo della Scala, e depois de 1312 a 1318 como h\u00f3spede de Cangrande I, a quem dedicou toda a cantiga do Para\u00edso. Cangrande \u00e9 citado no canto XVII como o maior benfeitor do poeta. Nesta pra\u00e7a, nos pal\u00e1cios que a rodeiam, Dante caminhou, discutiu, escreveu. \u00c9 um daqueles pormenores que tornam Verona algo mais do que uma bela cidade medieval.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>As Arche Scaligere: um cemit\u00e9rio de fam\u00edlia que vale um museu<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As Arche Scaligere encontram-se num pequeno recinto ao lado da Piazza dei Signori, e dificilmente se espera o que ali se descobre. Um cemit\u00e9rio privado, fechado por um gradeamento de ferro forjado decorado com o motivo da escada \u2014 o bras\u00e3o da fam\u00edlia. De fora parece quase discreto. De perto \u00e9 uma das obras g\u00f3ticas mais espetaculares da Europa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os tr\u00eas t\u00famulos monumentais \u2014 de Cangrande I, Mastino II e Cansignorio \u2014 s\u00e3o encimados por baldaquinos de m\u00e1rmore esculpidos, pin\u00e1culos g\u00f3ticos, est\u00e1tuas de santos guerreiros e, acima de tudo, as grandes esculturas equestres dos senhores a cavalo. As que hoje se veem sobre os t\u00famulos s\u00e3o c\u00f3pias: os originais est\u00e3o no Museu de Castelvecchio. Cangrande I sorri \u2014 um sorriso aberto e vital, caso rar\u00edssimo na escultura celebrativa do s\u00e9culo XIV, que fascina historiadores e visitantes h\u00e1 s\u00e9culos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O t\u00famulo de Cansignorio \u00e9 o mais elaborado de todos. Mandou-o construir ele pr\u00f3prio, durante a vida, porque estava em m\u00e1s condi\u00e7\u00f5es de sa\u00fade e queria ter voz ativa no seu pr\u00f3prio monumento funer\u00e1rio. Projetado por Bonino da Campione, custou mais de dez mil florins \u2014 uma quantia exorbitante para a \u00e9poca. O resultado assemelha-se a um relic\u00e1rio g\u00f3tico gigantesco, com seis santos guerreiros nos cantos e narra\u00e7\u00f5es evang\u00e9licas nos lados do sarc\u00f3fago. Cansignorio n\u00e3o se poupou.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Existe um curioso paradoxo no modo como se visita Verona. A maior parte dos turistas chega \u00e0 procura de Romeu e Julieta \u2014 uma hist\u00f3ria de fic\u00e7\u00e3o ambientada no s\u00e9culo XIV \u2014 e caminha, sem o saber, entre os monumentos reais desse mesmo s\u00e9culo, quase sem reparar neles. As Arche Scaligere ficam a cem metros da Casa de Julieta. San Zeno, uma das obras-primas do rom\u00e2nico italiano, est\u00e1 a dez minutos a p\u00e9 da Arena. E, no entanto, permanecem em segundo plano, menos fotografados, menos procurados.<br \/>\n\u00c9 uma pena, porque a Verona medieval \u00e9 extraordin\u00e1ria. E n\u00e3o no sentido gen\u00e9rico em que se diz que toda cidade italiana \u00e9 extraordin\u00e1ria: no sentido de que aqui, num per\u00edmetro de poucos quil\u00f3metros, uma s\u00f3 fam\u00edlia deixou uma marca arquitet\u00f3nica e art\u00edstica que tem poucos equivalentes na Europa. Chamavam-se Della Scala. Conhecemo-los como Scaligeri. 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