{"id":10584,"date":"2026-06-15T09:20:33","date_gmt":"2026-06-15T08:20:33","guid":{"rendered":"https:\/\/veronaguide.it\/?p=10584"},"modified":"2026-06-15T09:20:35","modified_gmt":"2026-06-15T08:20:35","slug":"verona-romana-a-cidade-que-os-romanos-construiram-para-durar-dois-mil-anos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/veronaguide.it\/pt-pt\/magazine-pt-pt\/verona-romana-a-cidade-que-os-romanos-construiram-para-durar-dois-mil-anos\/","title":{"rendered":"Verona romana: a cidade que os romanos constru\u00edram para durar dois mil anos"},"content":{"rendered":"<p>Verona era romana antes de ser medieval, antes de ser shakespeariana, antes de ser tudo aquilo que os turistas costumam vir procurar. E dessa Verona romana, curiosamente, resta muit\u00edssimo \u2014 bem mais do que se esperaria ao caminhar pelo centro hist\u00f3rico sem saber onde olhar.<\/p><p>Quase toda a gente conhece a Arena. Mas quantos sabem que sob a Piazza delle Erbe ainda est\u00e3o os alicerces do f\u00f3rum romano? Que a Porta Borsari se chamava originalmente Porta Iovia, dedicada a J\u00fapiter, e que o seu nome atual vem dos soldados medievais que ali cobravam as portagens? Que a Ponte Pietra, a ponte mais antiga da cidade, foi explodida em 1945 e reconstru\u00edda recuperando, um a um, os seus blocos de pedra do leito do rio?<\/p><p>A Verona romana n\u00e3o \u00e9 um cap\u00edtulo encerrado da hist\u00f3ria antiga. \u00c9 uma cidade ainda viva por baixo da atual, leg\u00edvel para quem sabe l\u00ea-la.<\/p><h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Uma localiza\u00e7\u00e3o que n\u00e3o se escolhe por acaso<\/strong><\/h2><p>Os romanos n\u00e3o fundavam as cidades ao acaso. Quando, no s\u00e9culo I a.C., transformam Verona de um pequeno povoado numa col\u00f3nia planeada, fazem-no porque aquela posi\u00e7\u00e3o vale ouro do ponto de vista estrat\u00e9gico.<\/p><p>H\u00e1 o rio \u00c1dige, que faz uma curva quase completa em torno da \u00e1rea urbana: defende tr\u00eas lados da cidade sem necessidade de construir muralhas. H\u00e1 a Via Postumia \u2014 a grande estrada consular que ligava G\u00e9nova a Aquileia atravessando toda a plan\u00edcie do P\u00f3 \u2014 que passa precisamente por aqui, transformando Verona no n\u00f3 vi\u00e1rio mais importante do norte de It\u00e1lia. H\u00e1 o Lago de Garda a poucos quil\u00f3metros, ent\u00e3o chamado Benacus, que garante recursos h\u00eddricos e comunica\u00e7\u00f5es em dire\u00e7\u00e3o ao arco alpino. E h\u00e1 o Brennero, a passagem natural para o norte da Europa, alcan\u00e7\u00e1vel subindo o vale do \u00c1dige.<\/p><p>Os generais romanos compreendem de imediato que quem controla Verona controla o tr\u00e1fego entre o Mediterr\u00e2neo e a Europa central. A cidade \u00e9 planeada em conformidade: com a precis\u00e3o ortogonal t\u00edpica de Roma, com um f\u00f3rum no centro, com ruas lajeadas que duram s\u00e9culos.<\/p><h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>A Arena: constru\u00edda fora das muralhas, tornada o cora\u00e7\u00e3o da cidade<\/strong><\/h2><p>A Arena de Verona \u00e9 o terceiro maior anfiteatro romano ainda existente no mundo, depois do Coliseu e do Anfiteatro de C\u00e1pua. Foi constru\u00edda em meados do s\u00e9culo I d.C., fora das muralhas da cidade romana \u2014 como quase todos os anfiteatros romanos, para evitar aglomera\u00e7\u00f5es no centro urbano durante os espet\u00e1culos. Podia conter cerca de 30 000 espectadores.<\/p><p>Um pormenor que quase ningu\u00e9m conhece: em 69 d.C., durante a guerra entre Vit\u00e9lio e Vespasiano, o imperador Vespasiano escolheu Verona como base militar precisamente porque a Arena se encontrava fora das muralhas, tornando-as in\u00fateis para fins defensivos. Mandou ent\u00e3o escavar um fosso suplementar a sul da cidade \u2014 o Adigetto \u2014 que se tornou depois uma das caracter\u00edsticas da paisagem urbana medieval.<\/p><p>O que vemos hoje \u00e9 quase inteiramente o anfiteatro original, com uma grande diferen\u00e7a: falta quase todo o anel exterior. Dele sobrevive apenas um fragmento no lado norte \u2014 quatro arcos a que os veroneses chamam a Ala \u2014 que mostram como devia parecer a estrutura antes de um forte sismo, em 1183, ter destru\u00eddo o terceiro anel de arcos. Os materiais que ru\u00edram foram usados para construir a cidade medieval. A Arena sempre reciclou os seus pr\u00f3prios escombros.<\/p><h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Porta Iovia: a entrada que os peregrinos viam primeiro<\/strong><\/h2><p>Quem chegava a Verona percorrendo a Via Postumia desde oeste, de G\u00e9nova ou de Mil\u00e3o, encontrava-se diante da Porta Borsari. Na \u00e9poca romana chamava-se Porta Iovia \u2014 do templo dedicado a J\u00fapiter Lustral que se erguia nas imedia\u00e7\u00f5es. Era a entrada principal da cidade e, como tal, fora constru\u00edda com todas as honras: duas ordens sobrepostas de janelas em arco, colunas cor\u00edntias, decora\u00e7\u00f5es que comunicavam o poder e o prest\u00edgio de Verona.<\/p><p>O nome Borsari surge muito mais tarde, na Idade M\u00e9dia, dos bursarii \u2014 os soldados que aqui estacionavam para cobrar as portagens sobre as mercadorias em tr\u00e2nsito. \u00c9 um daqueles casos em que o nome medieval encobriu o romano, mas o edif\u00edcio ainda conta claramente a sua hist\u00f3ria original: v\u00ea-se na simetria da fachada, nas propor\u00e7\u00f5es dos arcos, na qualidade do calc\u00e1rio veron\u00eas utilizado.<\/p><p>Passar sob a Porta Borsari significa, literalmente, entrar na cidade romana. Para al\u00e9m do arco, a avenida que se abre \u00e0 frente \u2014 Corso Cavour primeiro, depois Corso Porta Borsari \u2014 segue exatamente o decumanus maximus, o eixo este-oeste do planeamento romano. Caminha-se sobre uma estrada que os romanos projetaram h\u00e1 dois mil anos.<\/p><h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Piazza delle Erbe: o f\u00f3rum por baixo do mercado<\/strong><\/h2><p>A Piazza delle Erbe \u00e9 uma das pra\u00e7as mais animadas de It\u00e1lia, com as suas bancas de mercado, os seus pal\u00e1cios com frescos, o ru\u00eddo e a cor t\u00edpicos de um lugar vivido h\u00e1 s\u00e9culos. O que quase ningu\u00e9m imagina, ao atravess\u00e1-la, \u00e9 que est\u00e1 a caminhar sobre o antigo f\u00f3rum romano de Verona.<\/p><p>O f\u00f3rum era o centro pol\u00edtico, econ\u00f3mico e religioso de toda a cidade romana: o lugar das assembleias, do tribunal, do templo principal. Em Verona situava-se exatamente aqui, na \u00e1rea que ainda hoje coincide com a pra\u00e7a. Sob as pedras da cal\u00e7ada e os alicerces dos pal\u00e1cios est\u00e3o ainda os restos do Capitolium \u2014 o templo dedicado \u00e0 tr\u00edade capitolina de J\u00fapiter, Juno e Minerva \u2014 encontrados durante escava\u00e7\u00f5es no s\u00e9culo XIX e ainda hoje parcialmente visit\u00e1veis nas caves de alguns edif\u00edcios.<\/p><p>O cruzamento do decumanus maximus com o cardo maximus \u2014 o eixo norte-sul \u2014 ocorria precisamente aqui, na \u00e1rea do f\u00f3rum. Significa que a Piazza delle Erbe \u00e9 o ponto exato em torno do qual os quatro engenheiros romanos encarregados da funda\u00e7\u00e3o da col\u00f3nia desenharam toda a cidade. O mercado medieval, as mesas dos caf\u00e9s, as bancas de recorda\u00e7\u00f5es: tudo por cima da cruz que Roma tra\u00e7ou h\u00e1 dois mil anos.<\/p><h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Ponte Pietra: cinco arcos, tr\u00eas \u00e9pocas, uma s\u00f3 hist\u00f3ria<\/strong><\/h2><p>A Ponte Pietra \u00e9 a ponte mais antiga de Verona e uma das pontes romanas mais bem documentadas de It\u00e1lia. A sua hist\u00f3ria come\u00e7a provavelmente antes de 89 a.C. \u2014 a falta de alinhamento com a malha vi\u00e1ria romana leva a pensar que j\u00e1 existia antes do planeamento da col\u00f3nia, talvez como travessia primitiva do vau natural do \u00c1dige.<\/p><p>O que torna a Ponte Pietra visualmente \u00fanica \u00e9 a diversidade dos seus materiais: os dois arcos do lado esquerdo s\u00e3o ainda os romanos originais, em pedra branca. Os dois arcos da direita s\u00e3o medievais, em tijolo vermelho, reconstru\u00eddos entre os s\u00e9culos XIII e XIV pelos Scaligeri. O arco central \u00e9 veneziano, de 1520, obra de Fra&#8217; Giocondo. A ponte \u00e9 um atlas da arquitetura veronesa, leg\u00edvel em cinco v\u00e3os.<\/p><p>A 24 de abril de 1945, os soldados alem\u00e3es em retirada fizeram explodir todas as pontes da cidade. Da Ponte Pietra ficou intacto apenas o arco voltado para a cidade. O que se seguiu \u00e9 uma das mais belas hist\u00f3rias da conserva\u00e7\u00e3o italiana: o superintendente Piero Gazzola decidiu reconstruir a ponte por anastilose \u2014 recuperando do leito do rio cada bloco de pedra, catalogando-o e voltando a p\u00f4-lo no seu lugar. Os trabalhos duraram de 1957 a 1959. A ponte que se percorre hoje \u00e9 feita dos mesmos blocos da romana. Cada pedra foi resgatada, numerada, restitu\u00edda.<\/p><h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>O Teatro Romano e o Museu Arqueol\u00f3gico: para al\u00e9m do \u00c1dige<\/strong><\/h2><p>Na margem esquerda do \u00c1dige, ao p\u00e9 do Colle di San Pietro, ergue-se um segundo grande monumento romano que a maioria dos turistas n\u00e3o alcan\u00e7a: o Teatro Romano. Constru\u00eddo no s\u00e9culo I a.C., aproveita o declive natural da colina para a cavea \u2014 a solu\u00e7\u00e3o t\u00edpica dos teatros romanos, oposta \u00e0 dos anfiteatros, que se autossustentam estruturalmente. O palco voltava-se para o rio; o fundo de cena era o c\u00e9u e as colinas.<\/p><p>O Teatro Romano nunca caiu completamente em desuso: na Idade M\u00e9dia constru\u00edram-se sobre ele casas e igrejas que o ocultaram durante s\u00e9culos. Foi redescoberto e escavado no s\u00e9culo XIX. Hoje acolhe todos os ver\u00f5es a Estate Teatrale Veronese. Atuar ou assistir a um espet\u00e1culo ali, com a cidade iluminada ao fundo e o rio por baixo, \u00e9 uma experi\u00eancia que n\u00e3o se parece com nenhum outro teatro do mundo.<\/p><p>Por cima do teatro, acess\u00edvel por um elevador escavado na rocha, encontra-se o Museu Arqueol\u00f3gico de Verona: mosaicos, inscri\u00e7\u00f5es, est\u00e1tuas, objetos da vida quotidiana que contam como se vivia na Verona dos s\u00e9culos I a IV d.C. \u00c9 o lugar certo para ligar todas as pe\u00e7as vistas pela cidade a uma hist\u00f3ria de conjunto.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Verona era romana antes de ser medieval, antes de ser shakespeariana, antes de ser tudo aquilo que os turistas costumam vir procurar. E dessa Verona romana, curiosamente, resta muit\u00edssimo \u2014 bem mais do que se esperaria ao caminhar pelo centro hist\u00f3rico sem saber onde olhar.<br \/>\nQuase toda a gente conhece a Arena. Mas quantos sabem que sob a Piazza delle Erbe ainda est\u00e3o os alicerces do f\u00f3rum romano? Que a Porta Borsari se chamava originalmente Porta Iovia, dedicada a J\u00fapiter, e que o seu nome atual vem dos soldados medievais que ali cobravam as portagens? Que a Ponte Pietra, a ponte mais antiga da cidade, foi explodida em 1945 e reconstru\u00edda recuperando, um a um, os seus blocos de pedra do leito do rio?<br \/>\nA Verona romana n\u00e3o \u00e9 um cap\u00edtulo encerrado da hist\u00f3ria antiga. \u00c9 uma cidade ainda viva por baixo da atual, leg\u00edvel para quem sabe l\u00ea-la.<\/p>\n","protected":false},"author":6,"featured_media":10578,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"rank_math_lock_modified_date":false,"footnotes":""},"categories":[285],"tags":[],"class_list":["post-10584","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-magazine-pt-pt"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/veronaguide.it\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10584"}],"collection":[{"href":"https:\/\/veronaguide.it\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/veronaguide.it\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/veronaguide.it\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/veronaguide.it\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10584"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/veronaguide.it\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10584\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10595,"href":"https:\/\/veronaguide.it\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10584\/revisions\/10595"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/veronaguide.it\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/10578"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/veronaguide.it\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10584"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/veronaguide.it\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10584"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/veronaguide.it\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10584"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}